Foucault e o estudo da relação antiguidade modernidade. O projeto consiste em examinar tanto a tradição textual, bem presente nos estudos de Michel Foucault e de estudiosos da Antiguidade e da Modernidade, em conjunção com a nem tão explorada cultura material. Relações de gênero, subalternidade e colonialismo são explorados a partir dos discursos e usos do passado, com leituras críticas e que enfatizem o protagonismo e a resistência. Destacam-se a iconografia antiga e moderna, assim como a epigrafia antiga e as reapropriações historiográficas.
Esse projeto propõe discutir teoricamente os sonhos e a imaginação das mulheres artistas, tendo como prismas a epistemologia feminista e o pensamento de Michel Foucault acerca das práticas e experiências oníricas, estas últimas, vinculadas em termos históricos à constituição das subjetividades. Para tanto, investigaremos as teorizações de Foucault com respeito ao sonho e à imaginação, em especial quando historicamente analisa o onirismo como parte da compreensão etopoética na cultura greco-romana. Num segundo núcleo temático dessa pesquisa, analisaremos como a cultura cristã da carne, efetuando a produção do sujeito de desejo, alterará a compreensão sobre as subjetividades femininas, sua sexualidade, sua liberdade e seu onirismo. Por fim, o projeto visa, num terceiro eixo, analisar produções artísticas contemporâneas que elaboram dimensões oníricas, em especial as obras de Rosana Paulino, Brígida Baltar e Ana Miguel, compreendendo como, nessa intersecção, pode-se ampliar a análise da imaginação feminista no Brasil. O Projeto insere-se em práticas de ensino, pesquisa e extensão.
A relação entre subjetividade e verdade, problematizada por Michel Foucault especialmente no curso Subjetividade e Verdade (1981) e A hermenêutica do Sujeito (1982), já analisada por conhecidos pesquisadores, abre novas possibilidades para se pensar a constituição do sujeito, a partir da relação que estabelece com o regime de verdades que imperam em sua própria cultura. Considerando que o indivíduo se constitui a partir de relações de poder que incidem sobre seu corpo os modos de sujeição, Foucault também destaca que a relação que estabelece consigo mesmo, a que denomina de modos de subjetivação, abre espaços para se pensar as contracondutas e as heterotopias. Afinal, em suas palavras, onde há poder há resistência. O presente projeto investiga o lugar que ocupam a sexualidade, o prazer e o erotismo nas problematizações de Foucault, que destacam as profundas rupturas e descontinuidades nas concepções e nas práticas vivenciadas em diferentes momentos históricos.
Esse projeto investiga os mitos da transparência e da autenticidade que dominam o imaginário social desde o Iluminismo, mas talvez desde muito antes, com a emergência do cristianismo e de seu regime de verdades, do poder pastoral e das práticas de si. A crença de que devemos viver em absoluta claridade e transparência, de que tudo deve ser literalmente iluminado, da casa à cidade, leva também ao tema da autenticidade, à ideia de que devemos ser autênticos, expostos a todos. De outro lado, está também em jogo a concepção que faz da obscuridade e da sombra negatividades, na cultura ocidental, como mostram o escritor japonês Junichiro Tanizaki e o filósofo francês Didi Huberman. Por sua vez, ao estudar os textos dos padres fundadores do cristianismo, Foucault destaca o tema da impureza pecaminosa que nos habita, desde as formulações de Tertuliano e Agostinho, para quem precisamos ser vigiados e nos vigiarmos sem cessar, pois somos todos potencialmente suspeitos. Ao contrário da ascese grega, que supunha as “estéticas da existência”, somos induzidos a operar ininterruptamente a “hermenêutica de si” e a tomar cuidado com o Diabo que habita nossa alma e nosso corpo e determina nossos passos. Em outras palavras, precisamos nos purificar, seja confessando, seja renunciando a nós mesmos e aos nossos desejos, potencialmente libidinosos, ou seja, perversos. A prática da confissão, diz Foucault, há muito saiu do confessionário para ser praticada em todos os espaços da sociabilidade, no público, no privado ou na intimidade: o homem se tornou um “animal confidente”. Esse tema se estende, em suas reflexões, ao século XIX, onde encontra o Panóptico de Bentham, como princípio arquitetônico privilegiado nas cidades modernas e os textos médicos preocupados com a higienização e com a definição das identidades sexuais. As mulheres, por sua vez, tornam-se objetos privilegiados de atenção, divididas entre as herdeiras pecadoras e sensuais de Eva e a mãe-assexuada, símbolo da pureza, da luminosidade e da transparência, até os nossos dias.